14.03.2018
O legado do Six Invitational para a disputa da Pro League
Qual foi o aprendizado que Team Liquid, FaZe, BD e YeaH! tiveram após o mundial?

Por Luiz Queiroga


É chegado o grande dia! Finalmente as emoções da sétima temporada da Pro League vão começar. No início da noite desta quarta-feira (14), será dada a largada para o título latino-americano, com direito a premiação de 27 mil dólares e acesso à vaga mundial.

Dentre as oito equipes participantes, metade chega para o circuito trazendo enorme bagagem vinda do Six Invitational, disputado em fevereiro, na cidade de Montreal, no Canadá. Certamente essa foi uma experiência que pode fazer muita diferença durante a Pro League.

Mas, afinal, o que Team Liquid, FaZe Clan, Black Dragons e-Sports e YeaH! Gaming tiveram como aprendizado após o mundial? 

Nós da ESL BRASIL conversarmos com pro players, coaches e Otávio “Retalha” Ceschi, analista da Ubisoft, para descobrir o legado deixado pelo Six Invitational.

Lembrar para não esquecer…

Não é preciso dizer que houve enorme expectativa em cima das equipes brasileiras para a disputa do torneio em Montreal. Com 16 organizações no circuito, nosso país contava com 25% de representação - e todas as quatro equipes tinham total condição de chegar até a finalíssima.

Acontece que o favoritismo tupiniquim não prevaleceu e um sentimento de frustração tomou conta da comunidade. O Brasil parou na semifinal, tendo a Black Dragons como a que mais chegou longe

Antes, aconteceu a dupla eliminação ainda na fase de grupos por parte de Team Liquid e YeaH! Gaming. Já a FaZe Clan, que passou invicta por essa etapa inicial, acabou caindo nas quartas de final.

“As equipes brasileiras acabaram ficando abaixo da média. Apesar de a gente continuar com times ali no Top-8 no mundial, acho que essas organizações poderiam ter desempenhado papel muito melhor, principalmente na fase de grupos”, analisou Retalha.

“São detalhes. Potencial e skills a equipes têm.” E não tem como discordar. Mas Ceschi reforçou a importância de se corrigir o quanto antes esses erros para que consigamos ter um time brasileiro no topo mundial.

Ele pegou a PENTA como exemplo. Os europeus foram os campeões do Six Invitational, além de predominar no cenário com três títulos de Pro League. “Como eles conseguem isso e a gente não, se o cenário praticamente cresceu ao mesmo tempo?”

PENTA e-Sports acabou levantando a Marreta do Six Invitational (Foto: divulgação)

A maior surpresa negativa

A principal decepção ficou por conta da Team Liquid. “Todo mundo tinha muita esperança  que eles fossem jogar bem, mas o jogo não acabou entrando”, avaliou o comentarista. 

ziG, da Team Liquid, fez um desabafo e quebrou a internet: muitos elogios, mas também muitas mensagens faltando totalmente com respeito (Foto: reprodução)

Para Retalha, houve claro problema no encaixe das estratégias, muito em função de erros individuais. “O ziG não entrou tão bem como no resto da temporada. E o yuuK teve um bom índice de kill, mas eram eliminações solitárias, que não ajudavam muito a equipe. Tem que lembrar que não adianta nada você conseguir a vantagem numérica, mas não finalizar a rodada.”

O coach André “Sensi” Kaneyasu admitiu à época que o rendimento ficou abaixo do esperado. “O time todo, incluindo a mim mesmo obviamente, teve responsabilidade. Apesar de ter sido a primeira vez do SexyCake e do Bullet em um mundial, eles não jogaram o que normalmente jogam nos treinos e em território tupiniquim.”

Retalha, porém, destacou outro fator decisivo para a eliminação precoce da Liquid: a boa fase dos adversários. “Mindfreak e Rogue estavam jogando demais. Essas duas equipes quando entraram contra a Liquid parece que cresceu o tamanho deles diante dos brasileiros.”

EntryFragger da equipe, André “nesk” Oliveira percebeu que o time não quis abrir mão das convicções. “O maior defeito foi não conseguir jogar o básico. Ficamos muito preso às nossas estratégias. Mesmo não encaixando, continuamos a insistir no erro.”

O peso de representar toda a nação 

A Black Dragons teve a dura missão de carregar todo o país nas costas na semifinal. Com todas as outras três brasileiras eliminadas, a torcida era toda à favor da BD.

“A pressão aumentou. Não dos jogadores, mas sim da responsabilidade de conseguir levantar esse primeiro título internacional para nossa nação”, avaliou Nicolle “Cherrygumms” Merhy, CEO da organização.

BD foi a equipe brasileira que teve o melhor desempenho no Six Invitational, caindo na semifinal (Foto: reprodução)

A eliminação veio diante da PENTA. As duas equipes já tinham se enfrentado na Season 3 da Pro League, em São Paulo - que contou com vitória brasileira. Na visão de Retalha, a BD estava numa melhor fase naquela época em comparação ao Invitational. “Não sei se por conta de terem feito um bootcamp muito em cima da hora”, ponderou. “Eles ficaram muito tempo fora da GH antes do mundial.”

O coach Marlon "Twisterman" Mello creditou a culpa pela eliminação no fator emocional. “O maior defeito foi o nervosismo, que fez com que as coisas no jogo da semifinal não saíssem como planejado.”

Cherrygumms adicionou outro ponto na balança: a falha na comunicação. “Acredito que o nosso maior defeito tenha sido não saber ‘counterar’ os ataques e defesas bem-feitas da PENTA.”

Início avassalador, fim trágico

A FaZe Clan foi de longe a organização que mais fez bonito na fase de grupos. Invicta, as duas vitórias vieram com incrível placar de 10-1 - o que garantiu classificação tranquila aos playoffs e também o aumento no favoritismo ao título

Para Retalha, o problema se deu numa “falha de estratégia na escolha de picks e bans” nas quartas de final contra a Evil Geniuses. Numa aposta arriscada de deixarem passar o cenário Arranha-Céu, ficaram encurralados. “Escolheram na sorte o terceiro mapa e deixaram pra ver no que ia dar.”

Além disso, o comentarista apontou a comunicação como outro problema grave. “Ainda mais num momento quando houve quatro eliminados pela equipe da EG por conta de um Barba Negra na janela, e a equipe da FaZe não estava se comunicando nessa hora.”

Por mais que esse round em específico ainda tenha sido garantido por Guilherme “gohaN” Alef, “deu pra perceber que a equipe estava perdida”. O capitão do time, inclusive, foi bem objetivo quanto à derrota. “Não conseguimos ter um bom desempenho no mapa Sky e Club House.”

Muito se falou sobre como a equipe demonstrou nervosismo diante da EG, principalmente após a primeira derrota. No intervalo da partida, as câmeras do evento gravaram um momento de inquietação total dos jogadores da FaZe - até com discussões mais intensas -, mas gohaN negou que isso tenha acontecido. “Na verdade não ocorreu nenhuma discussão durante o jogo e nem após. Foi como sempre: depois de uma derrota, focar mais e tentar novamente se superar, sempre em busca da vitória.”

 

As câmeras flagraram a inquietação da FaZe durante o intervalo

Novatos com momentos de veteranos

O destaque tupiniquim de maneira positiva ficou na conta da YeaH! Gaming. “A organização tinha tudo para não mostrar um ótimo resultado”, avaliou Retalha. “Era uma equipe nova, com jogadores viajando pela primeira vez para disputar um mundial num evento desse porte. Mas, ao contrário, eles tiveram uma campanha muito boa, dado o favoritismo contrário. Ninguém apostava tanto assim.”

Trata-se de uma equipe com muito potencial. “É uma line-up que têm muito futuro e que vai dar trabalho sim para as grandes organizações em 2018.”

Falando em nome da organização, a social media Rafaela Arnoldi comentou a respeito. “O Mundial foi nosso cartão de visitas. Mostramos ao mundo nosso potencial como time. Fomos bem, mesmo sabendo que temos muito a melhorar - e vamos.”

A YeaH! Gaming acabou o Six Invitational em terceiro na chave C (Foto: Ubisoft Sports)

A inexperiência num circuito mundial foi o fator determinante para a queda precoce no Invitational. Faltou maior malandragem e ousadia para o time, como no mapa Bank, diante da Supremacy na última partida da fase de grupos. A equipe não arriscou na alternação de operadores e pagou caro.

“Eles tentaram estratégia de defesa em baixo com duas C-4, uma Valkyrie e uma Mira. Em nenhum momento na primeira vez deu errado. Mas na segunda, eles não tentaram trazer um Smoke. E cansamos de falar que seu gás tóxico é muito útil para esse tipo de bomb porque é um mapa que as equipes demoram pra invadir”, alertou.

“Com o Smoke, você gasta pelo menos trinta segundos nisso e depois ainda tem a C-4 pra acabar utilizando”, analisou Retalha.

Para João “Yoona” Silva, isso se deu muito em função do emocional. “Acho que foi o nervosismo na hora de definir o segundo mapa. Estávamos com o map point por dois rounds, mas não conseguimos fechar.” 

Rafaela teve a mesma avaliação. “Conversamos com o time e pudemos perceber que o nervosismo e algumas decisões erradas, nos custaram rounds que poderiam ter nos levado mais longe na competição.”

Mas o problema é só emocional?

Na avaliação de Retalha, o buraco é mais embaixo. “É algo que as equipes brasileiras não podem errar: tem que ter um pick ban safe para garantir.”

Ele bateu outra vez na tecla pegando como exemplo a eliminação da FaZe. A opção em deixar passar Arranha-Céu foi por conta de a EG não saber jogar tanto naquele cenário. “Mas, ao mesmo tempo, eles mesmos não tinham táticas prontas para o mapa”, ressaltou.

“Às vezes pode querer inovar, mas se não tem estratégia, se é algo novo, será que vale a pena? Talvez a estratégia dentro de mapa sim, mas, agora, estratégia na hora de escolher os mapas… Vamos ver como é que fica para esta temporada.”

As organizações gringas mostraram melhor eficiência na escolha de picks e bans (Foto: reprodução)

O problema na escolha de mapas foi fundamental também para a eliminação da Team Liquid. “A equipe deixou passar um Kafe Dostoyevsky contra a Rogue. Eles acharam que ia dar bom, mas a Rogue já estava acostumada a jogar.”

Após essa partida, Retalha conversou, inclusive, com o coach da organização norte-americana, que revelou surpresa com a decisão da Liquid. Ele até reproduziu as palavras do próprio técnico. “Quando eles deixaram passar o mapa, eu fiquei ‘Como assim?’ Somos extremamente fortes naquele mapa.”

O aprendizado

Com o tanto de experiência vivida no Six Invitational, é claro que as equipes voltaram do Canadá com muita bagagem. Olha o que cada uma trouxe na mala:

Team Liquid

“O problema mesmo talvez tenha sido a falta e clareza de comunicação” - André “Sensi” Kaneyasu

“O maior defeito foi não conseguir jogar o básico. Ficamos muito presos às nossas estratégias que, mesmo não encaixando, continuamos a insistir no mesmo erro. Acredito que apenas nossa comunicação foi uma virtude nesse campeonato, pois, de resto, deixamos a desejar” - André “nesk” Oliveira

FaZe Clan

“Deixou o aprendizado de sempre estar evoluindo cada vez mais, que logo podemos chegar ao topo. Agora estaremos com mais entrosamento e consequentemente um melhor desempenho” - Guilherme “gohaN” Alef.

“Eu acho que a maior virtude foi nosso entrosamento. De aprendizado, é estar preparado para qualquer situação. Acho que essa é a chave para o sucesso” - Gabriel “Cameram4n” Marçal.

Black Dragons

“Sem dúvidas, acredito que o maior aprendizado vai ser saber se comunicar melhor e conseguir ‘counterar’ as jogadas que não derem certo, assim, conseguindo melhor direcionar o round quando alguma coisa der errada” - Nicolle “Cherrygumms” Merhy.

“Para nós, a principal virtude foi o foco. Em contra-partida, o maior defeito foi o nervosismo que fez com que as coisas no jogo da semifinal não saíssem como planejado. Agora temos uma equipe mais centrada no jogo e totalmente focada em corrigir seus antigos erros” - Marlon "Twisterman" Mello.

YeaH! Gaming

“Acho que o maior aprendizado foi conseguir uma experiência de jogar um campeonato mundial. Evoluímos bastante como um time lá. A maior virtude foi a comunicação e o teamplay em tão pouco tempo” - João “Yoona” Gabriel.

“Foi interessante jogar e treinar com times gringos lá fora, eles costumam ser mais inteligentes, jogar ‘mais junto’ por assim dizer. Aspectos que os times brasileiros precisam evoluir e lá jogar lá fora deixou isso bem claro” - Rafaela Arnoldi.

E o que já está em prática?

Com o iminente começo da Pro League, já é possível verificar como cada equipe se preparou durante esse intervalo entre Six Invitational e as qualificatórias latino-americanas.

A mudança mais radical foi da Team Liquid, que fez alterações no line-up: yuuK saiu para a entrada de Paulo Augusto “Psk1” Arneiro. Com isso, Sensi fez um alerta. “Nossos torcedores devem entender que houve uma troca de jogador, e que demore um pouco para que tudo se encaixe. Nosso foco não é deixar o time perfeito para essa season, mas sim para que possamos chegar no ápice até o major.”

Psk1 é a cara nova da Team Liquid para a Season 7 (Foto: divulgação)

Já por parte da FaZe Clan, a estratégia foi aumentar o tempo de descanso, como revelou gohaN. “Ainda estamos nos preparando. Ficamos em um recesso mais extenso pós Invitational. Porém, já estamos na gaming house.” Os estudos de adversário, claro, estão em dia.

Mente descansada: período de recesso após o Invitational como forma de chegar mais tranquila à Pro League (Foto: acervo pessoal/gohaN) 

A Black Dragons, por sua vez, resolveu desembolsar grana na GH exatamente para oferecer mais recursos aos players. “Estamos investindo mais e mais para termos uma gaming house com uma infraestrutura excelente para os jogadores somente se importarem em fazer o que melhor fazem: jogar.”

BD investiu pesado na infraestrutura para que os resultados apareçam com mais frequência (Foto: acervo pessoal/Cherrygumms)

A YeaH! Gaming, exatamente por ser uma equipe ainda em formação, vem treinando para transformar o potencial em realidade. Sem abrir muito o jogo, Yoona disse que o foco nos treinos foi “em mudar algumas táticas e melhorar outras. Acredito que esse foi o ponto que mais trabalhamos.” 

A chave para o sucesso, segunda Rafaela, vem sendo diálogo. “Os jogadores enxergaram os erros individuais e propuseram melhoras, assim, estão prontos para ganhar como time.”

Diálogo tem sido o fundamental na YeaH! (Foto: reprodução)

Agora, é ver se as quatro organizações fizeram a lição de casa direitinho… E que comecem os jogos!

Luiz Queiroga é jornalista da ESL BRASIL. Siga-o no Twitter!