15.05.2018
O que Team Liquid ainda pode melhorar para as finais presenciais da Pro League?
Conversamos com os adversários da Liquid no regional para ajudar na lição de casa
Gui Caielli

Por Luiz Queiroga


Expectativas altas para o desfecho da sétima temporada da Pro League, com as finais presenciais nos dias 19 e 20 de maio, em Atlantic City, em Nova Jérsei, nos Estados Unidos. Todo apaixonado por Tom Clancy’s Rainbow Six Siege está contando o tempo no relógio para que o final de semana chegue logo.

Uma das organizações brasileiras que está no páreo é a Team Liquid, vice-campeã latino-americana. Querendo dar aquela forcinha para os Cavalos, nós da ESL BRASIL conversamos com os adversários da equipe durante o regional, além de Otávio "Retalha" Ceschi, analista da Ubisoft, para ajudar a Liquid na lição de casa às vésperas do mundial.

Afinal, o que Team Liquid ainda pode melhorar para as finais presenciais da Pro League?

A trajetória

Antes de mais nada, é preciso olhar lá para o dia 21 de março, quando a Liquid estreou no circuito latino-americano em meio a Semana 2. Muitas dúvidas pairavam no ar por conta da eliminação precoce no Six Invitational e da troca de line-up, com a saída de Lucas “yuuK” Rodrigues para a entrada de Paulo “Psk1” Arneiro.

Vitória por 2 a 0 em cima da BRK e-Sports, mas com dois momentos bem distintos na partida. Em Litoral, o mapa começou bem disputado com 1-1 muito estratégico por parte das equipes em cada round. Depois, a Liquid passou a se soltar bem mais nos rounds, muito graças à boa performance de Psk1, muito seguro nas suas ações.

Sem muitos problemas, o game foi vencido por 5-2. Já em Banco, a BRK entrou mais ligada e esteve em vantagem até o 3-1, quando o bom momento voltou para as mãos da Team Liquid. Com André “nesk” Oliveira solto, os Cavalos reverteram as parciais e fecharam o mapa por 5-3.

Na Semana 4, o duelo mais esperado do Grupo B: Liquid e FaZe Clan, sendo que o time de Léo “ziG” Duarte levou a melhor por dois mapas a zero.

O astro da equipe, inclusive, foi fundamental para que o time levasse o primeiro game em Oregon: quando a partida estava empatada em 3-3, ziGueira foi fundamental com uma double kill para anular o ataque adversário e chamar a primeira vitória à favor da defesa no mapa. Os Cavalos pontuaram com um 6-5 nas parciais.

Em Clubhouse, o matchpoint à favor da Liquid veio depois que o time apostou numa defesa muito avançada, controlando a FaZe e com direito a nesk e Psk1 com a mira calibrada. Os oponentes até diminuíram o prejuízo, mas o mapa era mesmo dos Cavalos, que venceram de forma mais tranquila por 5-3.

Já na Semana 6, a conquista da última vaga aos playoffs presenciais da Pro League após a vitória por 2 a 0 em cima da Team oNe. Foi o jogo mais parelho até então para o time comandado por André “Sensi” Kaneyasu, com parciais de 6-5 em ambas as rodadas.

Um início muito precipitado da Liquid favoreceu o primeiro ponto para a T1 em Fronteira, mas José “Bullet” Souza tratou de mostrar serviço no round seguinte com nada menos do que quatro abates. As vitórias vinham de forma alternada até o overtime, com a Team Liquid ganhando graças a individualidade de nesk, Psk1 e Thiago “SexyCake” Reis.

Em Banco, os Cavalos tiveram um início melhor, levando as duas primeiras parciais. Só que a equipe contou com momentos de inconsistência, já que deixou empatar em 2-2, mas depois conseguiu chamar o matchpoint com 4-2 no placar. Acontece que a T1 levou o round para overtime. A oNe estava em melhor momento, até levou o primeiro ponto decisivo, mas a Liquid soube contornar a situação e fechar o mapa por 6-5.

Já na Semana 7, de decisão do título latino-americano, esperava-se um jogo no qual Team Liquid e FaZe Clan não mostrassem tudo o que sabiam - até mesmo por conta das finais presenciais.

Os Cavalos até começaram a grande final melhor. Em Oregon, os dois primeiros rounds foram à favor, com ótimas atuações de nesk e SexyCake. Com um trabalho de drones bem efetuado e Rafael “Mav” Loureiro em noite inspiradíssima, porém, a FaZe Clan reverteu a situação. Não tardou para empatar e engolir os adversários com 5-2.

Em Casa de Campo, a FaZe demonstrou melhor leitura de jogo e comunicação durante as ações nos rounds. A equipe conseguiu jogar de maneira muito tranquila nesse segundo mapa, encurralando a Liquid em vários momentos e fechando a partida com 5-1.

O que pode ser melhorado?

Num panorama geral, Retalha acredita que a Team Liquid não apresentou muitos defeitos ao decorrer do regional. “Se pegar o que a Liquid fez na Pro League, acho que não precisa mudar tanto não.”

Para Retalha (à direita), Liquid não precisa acertar muitos pontos não (Foto: Gui Caielli)

Até mesmo por apostar numa liquidez em termos de execução de jogo, a Team Liquid mostrou muito do seu novo potencial na vitória em cima da própria da FaZe Clan, ainda na fase de classificação. “O time jogou totalmente solto, com nesk livre pelo mapa e eles dominaram a FaZe. Nesse dia também, a FaZe não conseguiu jogar: ficou muito travada por conta desse estilo livre da Liquid.”

Para Bullet, ali a equipe mostrou que mudou muito de dois meses para cá. “Nosso time está bem diferente da Liquid do Invitational”, concordou. “Conseguimos bater de frente com a FaZe. Antes, nosso time não conseguia fazer isso e tenho certeza que vamos ainda mais fortes pra essa Pro League.”

O principal fator já foi corrigido na visão de Retalha: excesso de autocobrança. “A Liquid mudou o jeito de trabalhar. No Invitational, eles estavam assim: ‘Vamos só pensar no jogo. Não vamos nos divertir’. Agora, eles mudaram alguns pontos pra tentar relaxar isso, trabalhando de outra maneira.”

Trazendo a visão da BRK e-Sports, adversária da estreia da Team Liquid na Pro League, Matheus “pX” Mesquita fez questão de primeiro reforçar a qualidade que tanto os Cavalos como a FaZe Clan têm de sobra. “Os dois times brasileiros têm capacidade para chegar na final e até ser campeão.”

A BRK enfrentou as duas representantes do Brasil que estarão nas finais presenciais (Foto: Gui Caielli)

Analisando especificamente o estilo da Liquid, pX foi muito franco. “Galera da Liquid tá pesada, bastante focados.” Na opinião do suporte, “o leque de tática deles vai ajudar muito”.

Virtude que Adenauer "Silence" Alvarenga faz questão de reforçar. “Estamos focando mais nesses dias em estratégias novas. Bastante tática nova para chegar ao mundial com um conteúdo novo porque, além das alterações do jogo, o time precisa criar coisas novas.”

O pessoal da Team oNe também deu pitacos. Para Vitor “Hugzord” Gonçalves, “o time da Liquid está muito bem preparado”. “Apontar os erros dessa forma é muito difícil dentro de jogo são situações que acontecem por diversos fatores.”

Hugzord acabou elogiando a flexibilidade na execução das jogadas, virtude antes mencionada por Retalha. “Creio que o jogo se encaixa de formas diferentes dependendo do seu adversário. Acho que estão bem preparados e terão ótimos resultados lá fora!”

Para Dimas “Panico” Abreu, porém, essa liquidez pode às vezes comprometer. “No meu ponto de vista, o ataque deles estava muito organizado a ponto de esquecerem do básico do jogo e acabavam perdendo rounds por conta disso”, relembrou, mas com uma ressalva: “Não sei se isso foi por conta dos mapas ou eles estão jogando assim mesmo”.

Sensi admite que às vezes é necessário fazer o "arroz com feijão". A final regional foi prova disso. “O que tiramos de aprendizado foi fazer mais o nosso básico e procurar não reinventar a roda.”

Team oNe, que deu mais trabalho para a Liquid na Pro League, vê que os Cavalos podem melhorar muito e fazer bonito no mundial (Foto: Gui Caielli)

Panico acredita que a Liquid ainda desperdiça muito potencial quando está na defesa. É um ponto que, se reavaliado, pode fazer render ainda mais o team gaming. “Já na defesa, eles realmente estavam em ‘defesa’. Ou seja, não fizeram quase nenhuma jogada agressiva e, no meu ver, com a line-up deles isso é errado.”

Gleidson “GdNN1” Nunes tem a mesma opinião. “A Liquid é um time muito defensivo, e as vezes é necessário que eles agressivem mais para surpreender em diversas situações.” Para o suporte, não há muito segredo e canta o caminho das pedras: “Um pouco mais de agressividade trará benefícios para eles mesmos.”

Talvez quem fuja à regra seja nesk. O entry fragger é o jogador mais agressivo da Team Liquid, como bem pontuou Bullet. "Meu estilo de jogo é igual ao do nesk, só que ele é bem mais agressivo do que eu nas jogadas."

O que resulta em médias diferentes de K.D e K.D.A, por mais que os dois façam muitos abates. André Oliveira fez 63 kills no regional, três a mais que Bullet. Em contra-partida, nesk morreu 47 vezes, enquanto José Souza apenas 36 - gerando médias bem distintas, com K.D de 1,34 e 1,67, respectivamente, assim como K.D.A de 1,68 para nesk e 2,08 para Bullet.

"É bem importante dar menos a cara em certas jogadas. Um jogador vivo faz toda a diferença no Rainbow Six", avaliou Bullet.

João “iblackZ” Chiarelli, por sua vez, verificou outros problemas. “A Liquid precisa melhorar a comunicação in-game, junto com a questão dos drones em si. Tivemos muitas brechas em relação o posicionamento deles. Infelizmente não conseguimos aproveitar essa falha e eles foram superiores.”

O entry fragger demonstrou preocupação no que se refere à diferença de realidade entre os cenários tupiniquim e do exterior. “Acredito que os times que eles vão enfrentar têm estrutura e comunicação mais refinadas, o que pode prejudicar a estilo de jogo da Liquid.”

Por fim, por mais que os Cavalos demonstrem um team gaming bem líquido, “o jogo deles é basicamente trabalhado no nesk e Bullet” para iblackZ. “Se tu consegue anular os dois, você quebra a sinergia do time e atrapalha bastante o desenvolvimento do round por parte da Liquid.”

Na visão de SexyCake, o time ainda tem muitos recursos a oferecer caso perca seus dois entry fraggers. "Acho que mesmo o nesk e o Bullet sendo eliminados, ainda tem mais três jogadores de alta performance e continua sendo muito difícil pro outro time."

Se a Liquid escutar o que os seus adversários em meio ao regional têm a dizer, a equipe pode ir longe nas finais presenciais (Foto: Gui Caielli)

A trajetória até as finais presenciais não foi nada fácil. Com certeza, a comissão técnica da Team Liquid reavaliou todo o processo e vem acertando os pontos necessários. Que a opinião dos pro players que colaboraram na matéria ajude os Cavalos na lição de casa antes da estreia no mundial nesse final de semana.

 

Luiz Queiroga é jornalista da ESL BRASIL. Siga-o no Twitter!