16.05.2018
Veja o que mudou na FaZe Clan desde o início da Pro League
Dita como favorita desde o início do regional, campeã latino-americana quer o mundo
Gui Caielli

Por Luiz Queiroga


Antes mesmo do início da sétima temporada da Pro League latino-americana, o time a ser batido era a FaZe Clan. Não só especialistas, mas como as próprias equipes do circuito analisavam a organização como favorita para a conquista do regional.

Tal expectativa se confirmou, com o título garantido num jogo muito solto diante da Team Liquid após vitória por 2 a 0, no fim de abril. Passo fundamental dentro do projeto estabelecido pela organização de ser referência também no cenário de Tom Clancy’s Rainbow Six Siege. Mas a caminhada ainda está no começo.

Antes de mais nada, a equipe liderada por Guilherme “gohaN” Alf precisa mostrar serviço nos momentos de decisão, ainda mais em território gringo.

Basta olhar para trás, mais precisamente em fevereiro, quando ocorreu o Six Invitational: após uma fase de grupo avassaladora, sendo a única equipe do torneio a se classificar de maneira invicta, caiu nas quartas de final diante da EG.

Agora, às vésperas das finais presenciais da Pro League, marcadas para os dias 19 e 20 de maio, o time deu provas de que consegue superar momentos ruins.

Não é de se estranhar que as palavras de gohaN antes do início do regional, ainda no dia 13 de março, agora façam tanto sentido. “Nosso recado é que cada vez estamos mais perto de uma grande conquista. Estamos com fome de jogo.”

Veja o que mudou na FaZe Clan desde o início da Pro League, e entenda porque a prediction do capitão pode se tornar uma realidade.

Será que o futuro que gohaN previu está mais perto do que imaginávamos?

Comunicação em dia

Talvez a principal mudança que se viu na FaZe Clan em meio a disputa da temporada latino-americana foi no trato com a comunicação. Algo que preocupava desde o Six Invitational, na visão de Otávio “Retalha” Ceschi, analista da Ubisoft.

Naquela ocasião, o comentarista creditou parte da eliminação para a Evil Geniuses por conta de o time não ter sido preciso nos diálogos e, portanto, na tomada de decisões. “Ainda mais num momento quando houve quatro eliminados pela equipe da EG por conta de um Barba Negra na janela, e a equipe da FaZe não estava se comunicando nessa hora.”

O nervosismo durante o Six Invitational atrapalhou a comunicação do time

Já na estreia da Pro League, diante da YeaH! Gaming, o time apresentou maior virtude nesse quesito. O primeiro round, em Banco, inclusive, contou com uma comunicação fundamental para isolar os pro players adversários, o que dificultou qualquer tentativa de rotação e o ponto garantido.

Já na estreia da Pro League, diante da YeaH! Gaming, o time apresentou maior virtude nesse quesito. O primeiro round, em Banco, inclusive, contou com uma comunicação fundamental para isolar os pro players adversários, o que dificultou qualquer tentativa de rotação e o ponto garantido.

No compromisso seguinte pelo regional, no jogo contra a Team Liquid ainda na fase de grupos, a FaZe se mostrou perdida em vários momentos, mas muito por conta de André “nesk” Oliveira, que estava jogando totalmente solto, atrapalhando a team play.

Já contra BRK e-Sports e Black Dragons, além da final latino-americana, a FaZe Clan demonstrou ter definitivamente melhorado nesse aspecto, apresentando um trabalho muito eficiente com os drones.

O que, inclusive, fez o time passar a marcar bem melhor, como na decisão do regional, quando Leonardo “Astro” Buzzachera ficou na marcação e eliminou Léo “ziG” Duarte, numa rodada que decretou a virada fundamental nas parciais e o bom momento da FaZe naquele jogo ainda no primeiro mapa.

Astro, assim como outros jogadores, passou a marcar melhor por conta da comunicação mais alinhada (Foto: Gui Caielli)

A comunicação, que antes era uma pedra no sapato em algumas ocasiões, passou a virar principal virtude do time - o que era questão de tempo, até mesmo porque se trata da line-up de maior entrosamento do cenário tupiniquim.

“Isso é algo próprio nosso”, reforçou Astro em entrevista exclusiva à ESL BRASIL. “A nossa line já possui anos então sabemos exatamente o que um jogador deve fazer como plano A e o que provavelmente irá fazer como plano B caso algo de errado ocorra durante o round.”

A tomada de decisões também passou a ficar em dia, como pontuou Rafael “Mav” Loureiro. “A derrota no Invitational se deu por conta de pequenos erros e detalhes. Um erro no pick ban devido a termos uma map pool não tão boa. Hoje, tenho certeza que estamos mais preparados e esse tipo de coisa não vai acontecer.”

Tranquilidade acima de tudo

Não só a FaZe Clan, mas todos os brasileiros que estiveram na disputa do Six Invitational fraquejaram num mesmo ponto naquele mundial: o lado emocional. E a concentração da FaZe, digamos, ainda está em ponto de ebulição: a equipe alterna momentos de ritmo intenso com outros de perda de foco e fôlego.

O emocional pesou pra cima da FaZe nas quartas de final do Six Invitational (Foto: reprodução)

“Assim como todos os times, nós também temos um momento hype nos campeonatos e quando você acha que uma partida poderia ser tranquila, você se surpreende e acaba não conseguindo voltar com o fôlego a tempo no game”, avaliou João “HSnamuringa” Silva.

Essa irregularidade, vista no Invitational, também aconteceu durante a Pro League. Na fase de classificação, o time teve um começo muito promissor ao vencer a YeaH! Gaming por 2 a 0, mas na rodada seguinte perdeu por 2 a 0 para a Team Liquid - num confronto no qual o primeiro mapa foi muito disputado, mas a FaZe perdeu o fôlego no segundo game.

Na repescagem, mais um ritmo de muita intensidade no primeiro mapa com direito à vitória diante da BRK, mas, na sequência, a mesma concentração não foi vista, o que quase acarretou no empate e na disputa do terceiro game.

Com a comunicação em dia, a line da FaZe Clan dificilmente é surpreendida (Foto: Gui Caielli)

Já na semifinal, o roteiro se manteve: 5-1 muito frenético pra cima da Black Dragons, mas logo em seguida vitória apertadíssima por 6-4. Após a classificação à grande final, gohaN assegurou na época que não se tratava mais sobre falta de concentração.

“Na hora do jogo, sempre somos muito tranquilos. Literalmente trabalhamos ‘round a round’ sem nos preocupar quantos (rounds) ainda faltam, desse modo não perdemos a concentração para o nervosismo.”

Prova disso foi no jogo da repescagem. Quando a partida se encaminhava para o terceiro mapa, com o bom momento claramente nas mãos da BRK, que tinha a parcial de 5-4 à favor, a FaZe soube se impor no jogo e assegurar a classificação para a semifinal pelo placar geral de 2 a 0.

Definitivamente, tranquilidade é a palavra-chave no estilo proposto pela FaZe Clan, como reforçou Astro. “Independente das adversidades de cada confronto, levamos as partidas round a round, sem pensar muito em quantos faltam para vencermos. Dessa forma jogamos tranquilos e tudo flui melhor.”

Corrida contra o tempo

Não é novidade que muitas equipes optam em cozinhar a rodada para tentar uma infiltração já com o cronômetro quase zerado, mas não há quem sirva melhor esse prato do que a FaZe Clan.

O time comandado pelo coach Leandro “tgk” Portela aprimorou um estilo de jogo muito arrojado e ousado. Muitos rounds são vencidos nos momentos finais, seja no ataque ou na defesa. Quem tira vantagem dessa proposta de team gaming é HSnamuringa.

tgk (ao fundo) atuava como manager da FaZe, além de participar da comissão técnica. Agora, está oficializado como coach (Foto: divulgação)

O intermediário é o maior garçom da equipe, com nada menos do que 34 assistências. O segundo melhor no quesito é gohaN, com “apenas” 22.

Para João Silva, não só a escolha correta dos operadores na defesa ajuda na estatística, mas principalmente essa filosofia de jogo. “A questão de complicar o adversário deve levar em consideração a forma do qual o time joga.”

Na partida contra a YeaH! Gaming, na Semana 2, por exemplo, Astro e companhia adotaram postura de surpreender na entrega final, sempre desafiando a lógica do cronômetro. Em Banco, na quarta rodada, o time adversário plantou a bomba com o timer praticamente zerado, mas a FaZe contou com um triple kill definitivo de Buzzachera.

HSnamuringa ganha volume de jogo por conta do estilo adotado no team play da FaZe (Foto: Gui Caielli)

Outro exemplo? Na semifinal, a rodada inicial se manteve clean até os 20 segundos restantes. Foi quando a Black Dragons perdeu o seu primeiro homem, viu a FaZe realizar o plant com sucesso e Mav resolveu chamar quatro kills para garantir o primeiro ponto do mapa.

Na decisão, o matchpoint veio em posicionamento que obrigou nesk a rushar faltando apenas 15 segundos para o fim do cronômetro, caindo na armadilha da FaZe. Será que veremos o mesmo estilo nas finais presenciais?

“Não posso ser muito específico, mas trabalhamos em mudar principalmente gameplay nos mapas que mais jogamos nessa temporada e que com certeza serão analisados pelos outros times”, comentou Mav sem dar muitas dicas.

A promessa é de tentar surpreender sempre o adversário. “Trocamos algumas execuções para tornar nosso estilo de jogo mais imprevisível.”

Portela comentou sobre os trabalhos finais de preparação já de olho nas presenciais. “Intensificamos os treinos nas últimas semanas. Tínhamos em mente realizar um bootcamp em Los Angeles, porém, devido ao trâmite para solicitação do visto americano de alguns jogadores, não foi possível.”

Mesmo com o plano inicial não dando certo, a FaZe Clan teve boas sessões de treino. “Conseguimos manter uma boa performance com a ajuda de alguns times da América Latina e América do Norte.”

Lion que nada, aqui é Blitz

A chegada de Finka e Lion com a Season 7 deu muito o que falar, principalmente o segundo operador, que, para muitos, tinha um gadget muito apelão. Não à toa, pouco depois das finais regionais, a Ubisoft anunciou um nerf para acalmar os ânimos da comunidade.

Mas em meio a disputa da Pro League, ele foi de longe o agente mais utilizado pelos pro players: 220 rounds, o que representa 96% no uso geral com relação aos atacantes.

Mesmo assim, outro operador foi quem fez total diferença durante o regional pela FaZe Clan: o Blitz de Mav. Das 115 rodadas em que o operador foi acionado ao decorrer das sete semanas do circuito latino-americano, certamente o intermediário da FaZe foi quem fez melhor uso.

Como podem perceber, vítimas não faltaram…

Não só de Blitz que Mav se destaca. Só olhar o desempenho dele na decisão regional, quando foi o nome da partida. Loureiro fez 17 abates em 13 rodadas, gerando o maior K.D da noite, com 2,83.

Em outros momentos da Pro League, o intermediário demonstrou performance muito ousada, como contra a BD: ele chamou kill em cima de Psycho com uma C-4 depois de ter aberto um pequeno buraco na parede.

Em seguida, rotacionou, eliminou julio e conseguiu anular o desativador, se tornando o nome da rodada que já era praticamente perdida.

Mav não acredita que sofrerá marcação especial nas finais presenciais mesmo sendo o pro player em melhor fase da FaZe. “Nosso time já mostrou que todos os jogadores são capazes de aparecer e mostrar um bom desempenho. E lá fora, eles têm uma Meta e operadores diferentes dos nossos, então acho que eles não estarão acostumados ao nosso estilo de jogo.”

Mav atualmente é o jogador em melhor momento do time (Foto: Gui Caielli)

Com a comunicação em dia, basta a FaZe Clan ter tranquilidade para manter o ritmo avassalador que sempre procura ditar nas partidas para que chegue longe nos playoffs mundiais da Pro League.

Não estranhe se a prediction de gohaN de tempos atrás se tornar realidade agora...

 

Luiz Queiroga é jornalista da ESL BRASIL. Siga-o no Twitter!